quarta-feira, 11 de maio de 2011

SHOGUN NUNCA MAIS VAI LUTAR COPMO LUTOU CONTRA JOHN JONES

Em abril, Rafael Cordeiro completou dois anos desde que deixou a Chute Boxe para se mudar de vez para os Estados Unidos e criar a Kings MMA, hoje uma das academias mais famosas do mundo. Sob sua tutela, estão nomes como Fabricio Werdum, Mauricio Shogun e Renato Babalu, além de ilustres e rotineiros visitantes do nível de Anderson Silva e Wanderlei Silva. Isso sem falar dos gringos Mark Munoz, Jason "Mayhem" Miller e Krzysztof Soszynski, que aumentam ainda mais o nível daquele que é considerado um dos melhores lugares para se preparar para uma luta.

Não à toa, Shogun decidiu recorrer às orientações de seu mestre da época de Chute Boxe para se preparar para a luta mais importante de sua carreira, contra Forrest Griffin, no UFC Rio, dia 27 de agosto. O ex-campeão dos meio-pesados procurou Rafael Cordeiro para fazer o camp para sua primeira luta desde que perdeu o cinturão da categoria para Jon Jones.

Em entrevista exclusiva ao PVT, Rafael Cordeiro abre a guarda e fala de tudo, desde a situação atual da Chute Boxe, academia que o criou e que hoje sofre com a escassez de grandes nomes, até o papel de "pai" que tem que desempenhar na Kings MMA com tantos lutadores morando longe de suas famílias. Confira o bate-papo abaixo com o segundo melhor treinador de MMA do mundo, eleito por especialistas da PVT Mag em 2010, e indicado ao MMA Awards, o Oscar do MMA.

PVT: Você está há quase três anos nos Estados Unidos e sua academia faz cada vez mais sucesso. Sente-se totalmente adaptado a esse novo país?

Rafael Cordeiro: Esse período está sendo ótimo, fico muito feliz em poder mostrar a experiência que adquiri ao longos desses 25 anos de artes marciais. Vejo a metodologia que implemento fazendo efeito e mudando a vida de várias pessoas, e isso é muito bom. Estou muito feliz com essa mudança na carreira, com o fato de ter conseguido trazer minha família para cá desde o início do trabalho, vê-la toda falando inglês fluentemente, e ainda assim conseguir manter os mesmos valores que sempre prezamos no Brasil.


PVT: O apoio da família é muito importante para alguém que deixa seu país. Como você lida com tantos atletas, principalmente os brasileiros, nessa situação na Kings MMA?

Rafael: O brasileiro é um povo muito carinhoso, quer sempre abraçar e beijar, e os americanos nesse sentido são frios. No começo, quando abraçava a galera, eles ficavam duros, pensando: "o que esse cara tá fazendo?", mas quebramos esse gelo, agora eles acham legal, veem que o brasileiro é um povo que recebe todo mundo bem. O que fazemos aqui é tentar manter todo mundo o mais unido possível, debaixo um foco só, da mesma direção. A união aumenta quando você está fora do país, e ter pessoas que você já conhece da época do Brasil faz diferença, torna a amizade uma irmandade. O profissional de qualquer área tem que ter o espírito livre para desempenhar seu papel, sabendo que vai ter na academia amigos que fazem a diferença e que vai chegar em casa com a segurança da família. Aconselho a todos tentarem equilibrar e levar a família quando forem para fora.

É muito comum ver fotos da galera da Kings reunida na casa de algum dos atletas. Quase todos passaram a páscoa na casa do Werdum. Essa união é um dos ingredientes que faz a academia ter tanto sucesso?

Uma coisa que sempre tento fazer é manter o time unido, como um só. Fazer com que, indiferente do resultado final, todos possam olhar para trás e dizer que têm um grupo com pessoas fortes e unidas. O que está acontecendo hoje foi o que introduzi desde o começo da academia, a ideia de grupo forte, de não ter mentalidade de desenho animado, de querer dominar o mundo. Ter isso, conseguir aparar as arestas de discussões normais do dia a dia da academia, é o objetivo de quem está na liderança. O líder tem que saber controlar tudo o que acontece, afinal as pessoas ficam mais tempo na academia do que em casa e precisam correr no mesmo norte.

Sua responsabilidade aumentou ainda mais agora que o Shogun topou fazer o camp para o UFC Rio na Kings. Ele estando aí aumentam as chances de uma volta por cima na carreira?

Já conversamos há muito tempo sobre ele vir para a Kings. Ele foi meu atleta desde a faixa branca, ninguém o conhece tanto quanto eu, criamos uma intimidade grande. Ficou fácil trazê-lo pela amizade e carinho que temos. Conversamos antes da luta contra o Jon Jones [para ele se juntar à Kings], mas ele não pôde vir por conta de algumas situações familiares. Mas logo depois da luta ele falou pra gente firmar o acordo, já procurou lugares para morar e ficar os dois meses e meio do camp, olhou carro, tudo. Ele treinou muito forte desde que chegou, como sempre fizemos em todas as áreas, e estava muito feliz e alegre. Aqui tem muita coisa para somar ao jogo do Shogun.

E como você viu a pessoa Mauricio Rua, não o atleta, quando ele chegou aí nos Estados Unidos?

Ele chegou aqui de cabeça erguida, com postura de campeão e de quem vai dar a volta por cima, de quem sabe que tem que correr atrás. Pode ter certeza de que a Kings vai deixá-lo fortalecido, de que ele vai voltar com todos os seus direitos. A luta com o Jon Jones foi um grande aprendizado, como em todas as outras, independentemente se você vence ou não. Aqui não é uma casa de milagres, mas é um lugar onde ele vai trabalhar de uma maneira em que ele nunca mais vai lutar como lutou contra o Jon Jones. Essa é a única garantia que demos a ele.

PVT: E o Werdum? Como está a preparação dele para essa luta importantíssima contra o Alistair Overeem?

Rafael Cordeiro: O Werdum vai pra guerra. Ele está sendo preparado para o pior, para passar por qualquer situação no octagon, é assim que treinamos aqui, para tudo o que acontecer ser bom. Ele tem um coração de samurai, ou você desliga ele ou ele vai lutar até não aguentar mais, e quero aumentar ainda mais esse espírito. O grupo está fazendo ele ficar ainda mais forte e isso vai fazer diferença na luta, vai chegar pronto para tudo.

PVT: Werdum, Shogun, Wanderlei, Babalu... todos esses talentos brasileiros tiveram que sair do país para progredir na carreira. Como analisa esse êxodo cada vez maior, como se fosse no futebol?

Rafael Cordeiro: Infelizmente isso acontece por conta da possibilidade e portas abertas que pessoas com certo nome dentro das artes marciais encontram nos EUA e não no Brasil. O Brasil é o maior celeiro do mundo, tem o melhor muay thai para MMA, Jiu-Jitsu, estamos aprendendo o wrestling com os americanos... temos um boxe forte, treinadores de nível... mas não temos apoio, incentivo, e aqui encontra-se isso, é possível dar uma condição boa para a família. Isso, é claro, vindo para cá com uma estrutura certa. Nunca vou falar para alguém largar tudo e vir para cá porque é um sonho. É muito bom quando se chega com estrutura, documentação, porque o país fecha as portas para quem cai na ilegalidade. Fiquei impressionado e muito feliz em ver como conheciam o meu trabalho aqui, vim para os EUA na hora certa.

PVT: Boa parte dos seus atletas veio da Chute Boxe, assim como você. Hoje a academia passa por uma escassez de atletas de nível. Acredita que o Mestre Rudimar e o pessoal de lá vai conseguir reerguer a academia?

Rafael Cordeiro: Na hora certa, vão aparecer novos atletas na academia. A Chute Boxe não para, com certeza formará novos campeões, cabe a ele continuar o trabalho que os que saíram deixaram. Trouxe para a Kings um pouco do trabalho na Chute Boxe, devo tudo o que aprendi a eles, uso o que acho que pode ser bom da metodologia de lá com meus atletas. Cada um fez seu caminho, seguiu sua vida, está feliz com a opção que fez, e com certeza todos têm uma lembrança de uma academia muito forte e de um grande aprendizado. A Chute Boxe mostrou nosso trabalho para o mundo, tenho gratidão muito grande por ela, e espero que ela também tenha por mim, porque eu, assim como os atletas, dedicamos bons anos de trabalho à academia e a ajudamos muito.

PVT

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